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QUEM PAGA ISSO?
De Onde Vem o Lucro

Por que o LEGO é tão caro? O relatório de 2025, linha por linha

Em 2025, de cada 100 que chegaram à LEGO, 20 viraram lucro. Seguimos os outros 80 pela tabela de custos do relatório anual e mostramos o que o balanço não explica.

Por Quem Paga Isso? · · 8 min de leitura

Capítulos do vídeo
  1. 0:00A pergunta
  2. 0:29Da loja à LEGO
  3. 1:32O tamanho
  4. 2:04A nota dos custos
  5. 4:02As licenças
  6. 4:48O resto da conta
  7. 5:58O que sobra
  8. 6:26Quem fica com ele
  9. 7:132004 e 2025
  10. 7:43O que não aparece
  11. 8:06Resumo

Uma caixa de LEGO costuma custar caro. Mas para onde vai esse dinheiro? Uma parte nem chega à empresa: fica com quem está no meio do caminho, até a prateleira. Do que chega, o relatório anual da LEGO de 2025, publicado em 10 de março de 2026, abre a conta. E a conta começa com um número: em 2025, de cada 100 que chegaram à LEGO, 20 viraram lucro.

Então, para onde foram os outros 80? Este texto segue esse dinheiro linha por linha, pela tabela de custos do relatório. Depois, mostra quanto sobra depois do imposto e quem fica com o lucro e, no fim, o que o balanço não explica.

Da loja à LEGO

O que você paga na loja não vai todo para a LEGO. Uma parte fica com o lojista, outra vai para os impostos do país, e essas partes não entram na receita da empresa.

No fim de 2025, existiam 1.112 lojas com a marca, em 54 mercados. Só 214 eram da própria LEGO. As outras eram de parceiros: 800 lojas certificadas, 57 em aeroportos e 41 em parques. A LEGO também vende para lojistas, e, segundo o relatório, o prazo de pagamento nos contratos é, em média, de cerca de 55 dias.

Uma fatura da LEGO para o lojista, com o prazo médio de cerca de 55 dias
A LEGO vende ao lojista e recebe depois, em cerca de 55 dias.

A receita da LEGO também já sai descontada das bonificações e das verbas que ela paga aos lojistas. O próprio relatório separa o que as pessoas compraram do que a LEGO recebeu. Em 2025, sem o efeito do câmbio, as vendas ao consumidor cresceram 16%. A receita da LEGO, na mesma conta, cresceu 14%.

No Brasil, a LEGO não tem fábrica, só uma empresa de vendas e distribuição. A caixa vendida aqui vem de fora e paga imposto de importação. Por isso, daqui para a frente, toda conta é de cada 100 que chegam à LEGO, e não do preço da prateleira.

A frase "de cada 100 que chegam à LEGO", com "não do preço da prateleira" riscado embaixo
Toda conta deste texto parte do que chega à LEGO, não do preço da loja.

O tamanho

A LEGO é uma empresa da Dinamarca e publica as contas em coroas dinamarquesas. Em 2025, a receita foi de 83,5 bilhões de coroas, contra 74,3 bilhões em 2024. Na cotação do Banco Central do Brasil de 31 de dezembro de 2025, de R$ 0,8661 por coroa, isso dá perto de R$ 72 bilhões. É uma aproximação: a receita entrou ao longo do ano, com a cotação de cada dia.

A receita de 2025, DKK 83,5 bilhões, convertida em cerca de R$ 72 bilhões
Receita de 2025 em coroas e, aproximada, em reais.

Dessa receita, 99% é venda de produtos. O resto vem de licenças e de outras receitas. Das vendas de produtos, 46,5% vêm das Américas, 42,0% da Europa, do Oriente Médio e da África, e 11,5% da Ásia e do Pacífico. O relatório não separa o Brasil.

A nota dos custos

Agora, a conta linha por linha. Numa tabela das notas do relatório (a nota 2.2, na página 52), a empresa divide os custos da operação de 2025 por natureza, ou seja, pelo tipo de gasto. São sete linhas, e cada uma aqui é lida como uma parte de cada 100 que chegam à LEGO. Assim, a conta vale em qualquer moeda. Depois dessas sete linhas, sobra o lucro operacional, antes dos juros e do imposto.

A primeira linha é a da matéria-prima e dos insumos: 14,7 de cada 100. Ela inclui o plástico e também outros materiais. O relatório não separa a peça, a caixa e o manual.

Na fábrica, são três etapas: moldar as peças, decorar e montar, e embalar. A LEGO tem seis fábricas próprias, na Dinamarca, na China, na Tchéquia, na Hungria, no México e no Vietnã, e uma sétima em obras na Virgínia, nos Estados Unidos, prevista para 2027. Segundo o relatório, a energia é uma parte relativamente baixa do custo de produção.

Outra linha é a depreciação e amortização: o desgaste das máquinas, dos moldes e dos prédios, contado um pouco a cada ano. Ela fica com 3,9 de cada 100. No balanço, um molde é depreciado em cinco anos, e uma máquina, de cinco a quinze. Somando o material e o desgaste, são 18,6 de cada 100, menos de 19. A matéria-prima não é o que mais pesa nessa conta.

A matéria-prima, 14,7, e a depreciação, 3,9, somando 18,6 de cada 100
Material e desgaste juntos: menos de 19 de cada 100.

A maior linha da conta é a das pessoas: salários, previdência e encargos, com 20,5 de cada 100. No fim de 2025, a LEGO tinha 33.801 funcionários. Essa linha soma todo mundo da empresa, das fábricas aos escritórios. Ou seja, a LEGO gasta mais com gente do que com toda a matéria-prima e os insumos.

A barra do pessoal, 20,5, mais alta que a da matéria-prima, 14,7
Pessoal pesa mais que a matéria-prima.

Depois vem o marketing, com 12,2 de cada 100, um pouco menos do que tudo o que vai para a matéria-prima. Somando pessoas e marketing, são 32,6 de cada 100, mais que o dobro da matéria-prima.

Pessoal e marketing empilhados, 32,6, ao lado de duas vezes a matéria-prima, 29,4
Pessoas e marketing passam do dobro da matéria-prima.

As licenças

Outra linha é a das licenças e dos royalties: 8,1 de cada 100. Nela entra, por exemplo, o que a LEGO paga para usar marcas de outras empresas. Entre os temas que mais venderam em 2025, o relatório cita o Star Wars, que leva a marca de outra empresa. Só que o relatório não diz quanto vai para cada dono de licença. Nessa parte, o balanço não abre a conta.

A linha de licenças e royalties, 8,1, com um carimbo "não publicado" sobre o valor de cada dono de licença
Quanto vai a cada dono de licença, o relatório não publica.

Uma outra nota do relatório (a nota 5.4, na página 68) mostra um pagamento diferente. A LEGO paga à LEGO Holding, a empresa que controla o grupo, um royalty pelo uso da marca LEGO. Em 2025, foram 2,965 bilhões de coroas, quase três bilhões, cerca de 3,5 de cada 100 que chegam à LEGO.

O relatório não diz se esse valor está dentro da linha das licenças. Por isso, aqui ele fica à parte, sem somar nem subtrair.

O royalty pela marca, DKK 2.965 milhões, num cartão separado, com a pergunta "dentro ou fora?"
O royalty da marca fica à parte: o relatório não diz se está nos 8,1.

O resto da conta

Faltam duas linhas. A LEGO tem cinco centros regionais de distribuição, e a linha da distribuição fica com 3,9 de cada 100. Uma linha de outras despesas externas fica com 10,4, e a tabela não detalha o que entra nela.

No total, os custos ficam com 73,6 de cada 100. Sobram 26,4. Esse é o lucro operacional, o que a empresa ganha com a operação, antes dos juros e do imposto.

100 menos 73,6 de custos dá 26,4 de lucro operacional
Depois das sete linhas, sobram 26,4 de cada 100.

A mesma conta, por função

O relatório mostra a mesma conta de outro jeito, pela função de cada gasto, na demonstração de resultado (página 44). Fazer o produto custa 32,2 de cada 100. Vender e distribuir, 30,8. Administração e tecnologia, 7,9. Pesquisa e desenvolvimento, 2,8. O lucro operacional é o mesmo, 26,4.

Nessa divisão, o custo de fazer o produto já inclui a matéria-prima, os insumos, os royalties e a mão de obra da fábrica. Por isso, as duas divisões não se somam.

Tirando só o custo de fazer o produto, sobram 67,8 de cada 100. Isso se chama margem bruta. Um erro comum é ler esse número como lucro. A margem bruta é o que sobra antes de vender, administrar, pesquisar e pagar o imposto. O lucro que fica no fim é bem menor.

A margem bruta, 67,8, com o carimbo "não é lucro líquido", ligada ao lucro líquido, 20,0
A margem bruta não é o lucro.

O que sobra

Dos 26,4 de lucro operacional, ainda saem duas linhas. O imposto de renda leva 6,0 de cada 100; em 2025, a alíquota efetiva foi de 22,9%, para uma alíquota de 22% na Dinamarca. O resultado financeiro, com os juros e o câmbio, tira mais 0,4.

Sobram 20,0 de cada 100. Esse é o lucro líquido de 2025: 16,7 bilhões de coroas, perto de R$ 14,5 bilhões na mesma cotação de 31 de dezembro de 2025. Assim, o lucro do ano foi maior que tudo o que a LEGO gastou com matéria-prima e insumos.

O lucro líquido, 20,0 de cada 100, numa barra mais alta que a da matéria-prima, 14,7
O lucro de 2025 passa a matéria-prima.

Quem fica com ele

Desde 11 de agosto de 2025, 75% da LEGO A/S são da LEGO Holding, que pertence à KIRKBI, a empresa da família Kirk Kristiansen. Os outros 25% são da LEGO Foundation Investments, uma empresa da Fundação LEGO. Segundo o relatório, essa nova estrutura não muda quem é o dono final.

A família Kirk Kristiansen e a K2 Fonden af 2023, a KIRKBI e a LEGO Holding com 75%, e a Fundação LEGO e a LEGO Foundation Investments com 25%, acima da LEGO A/S
Três quartos são da LEGO Holding, e um quarto, da empresa da Fundação.

Em maio de 2025, a LEGO pagou 9 bilhões de coroas em dividendos: 6,75 bilhões para a KIRKBI e 2,25 bilhões para a Fundação, ou seja, três quartos e um quarto. Esse dinheiro saiu do lucro de 2024.

Sobre o lucro de 2025, a proposta é de 8 bilhões de coroas em dividendos, perto da metade dos 16,7 bilhões. É uma proposta: o relatório traz o valor proposto, não um pagamento já feito. O resto fica na empresa. Em 2025, ela investiu 9,2 bilhões de coroas em fábricas, centros de distribuição e escritórios.

A barra do lucro líquido de 2025, DKK 16,7 bilhões, cortada perto da metade pela proposta de dividendo de DKK 8 bilhões
A proposta de dividendo sobre o lucro de 2025: perto da metade.

O que a Fundação faz com a parte dela não está neste relatório, e por isso fica fora deste texto.

2004 e 2025

No relatório anual de 2008, a tabela de cinco anos começa em 2004, o pior ano dessa tabela. Em 2004, a receita foi de 6,3 bilhões de coroas, e a LEGO teve um prejuízo de 1,8 bilhão de coroas: 28,6 de cada 100 que chegaram.

Em 2025, o lucro foi de 20 de cada 100. A receita ficou mais de 13 vezes maior, sem descontar a inflação. Essas tabelas não explicam as causas dessa virada, e por isso elas ficam fora deste texto.

2004 com prejuízo de 28,6 de cada 100 e 2025 com lucro de 20,0, e a receita mais de 13 vezes maior
De 2004 a 2025, a receita ficou mais de 13 vezes maior, sem descontar a inflação.

O que não aparece

Por fim, o que esse balanço não explica. Ele não diz o preço de nenhuma caixa, nem quanto custa cada peça. Também não diz quanto vai para cada dono de licença, nem mostra a margem do lojista ou o imposto que a caixa paga no Brasil.

O que ele mostra é o caminho do dinheiro depois que chega à LEGO. Para explicar o preço numa loja daqui, faltam as contas de quem está no meio do caminho.

Resumo

Em resumo, com os números de 2025:

  • O que você paga na loja não chega todo à LEGO.
  • De cada 100 que chegam à LEGO, a matéria-prima e os insumos levam menos de 15.
  • Pessoas, marketing e licenças levam mais de 40.
  • Depois de todos os custos e do imposto, 20 viram lucro, e a proposta é pagar perto da metade dele em dividendos aos donos.

O plástico não é o que mais pesa na conta da LEGO. Somadas, as pessoas, o marketing e as licenças pesam quase três vezes a matéria-prima, e o lucro, sozinho, pesa mais que ela.

Fontes

  1. The LEGO Group 2025 Annual Report lego.com
  2. 2025 Financial Highlights lego.com
  3. LEGO Group, 1º semestre de 2026 lego.com
  4. Annual Report 2008 lego.com

Todos os números do vídeo e deste artigo foram conferidos nestes documentos antes da publicação.

Este artigo explica como uma empresa ou um sistema funciona. Não é recomendação de investimento, de compra nem de nenhum produto financeiro.

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