Por que o LEGO é tão caro? O relatório de 2025, linha por linha
Em 2025, de cada 100 que chegaram à LEGO, 20 viraram lucro. Seguimos os outros 80 pela tabela de custos do relatório anual e mostramos o que o balanço não explica.
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Uma caixa de LEGO costuma custar caro. Mas para onde vai esse dinheiro? Uma parte nem chega à empresa: fica com quem está no meio do caminho, até a prateleira. Do que chega, o relatório anual da LEGO de 2025, publicado em 10 de março de 2026, abre a conta. E a conta começa com um número: em 2025, de cada 100 que chegaram à LEGO, 20 viraram lucro.
Então, para onde foram os outros 80? Este texto segue esse dinheiro linha por linha, pela tabela de custos do relatório. Depois, mostra quanto sobra depois do imposto e quem fica com o lucro e, no fim, o que o balanço não explica.
Da loja à LEGO
O que você paga na loja não vai todo para a LEGO. Uma parte fica com o lojista, outra vai para os impostos do país, e essas partes não entram na receita da empresa.
No fim de 2025, existiam 1.112 lojas com a marca, em 54 mercados. Só 214 eram da própria LEGO. As outras eram de parceiros: 800 lojas certificadas, 57 em aeroportos e 41 em parques. A LEGO também vende para lojistas, e, segundo o relatório, o prazo de pagamento nos contratos é, em média, de cerca de 55 dias.

A receita da LEGO também já sai descontada das bonificações e das verbas que ela paga aos lojistas. O próprio relatório separa o que as pessoas compraram do que a LEGO recebeu. Em 2025, sem o efeito do câmbio, as vendas ao consumidor cresceram 16%. A receita da LEGO, na mesma conta, cresceu 14%.
No Brasil, a LEGO não tem fábrica, só uma empresa de vendas e distribuição. A caixa vendida aqui vem de fora e paga imposto de importação. Por isso, daqui para a frente, toda conta é de cada 100 que chegam à LEGO, e não do preço da prateleira.

O tamanho
A LEGO é uma empresa da Dinamarca e publica as contas em coroas dinamarquesas. Em 2025, a receita foi de 83,5 bilhões de coroas, contra 74,3 bilhões em 2024. Na cotação do Banco Central do Brasil de 31 de dezembro de 2025, de R$ 0,8661 por coroa, isso dá perto de R$ 72 bilhões. É uma aproximação: a receita entrou ao longo do ano, com a cotação de cada dia.

Dessa receita, 99% é venda de produtos. O resto vem de licenças e de outras receitas. Das vendas de produtos, 46,5% vêm das Américas, 42,0% da Europa, do Oriente Médio e da África, e 11,5% da Ásia e do Pacífico. O relatório não separa o Brasil.
A nota dos custos
Agora, a conta linha por linha. Numa tabela das notas do relatório (a nota 2.2, na página 52), a empresa divide os custos da operação de 2025 por natureza, ou seja, pelo tipo de gasto. São sete linhas, e cada uma aqui é lida como uma parte de cada 100 que chegam à LEGO. Assim, a conta vale em qualquer moeda. Depois dessas sete linhas, sobra o lucro operacional, antes dos juros e do imposto.
A primeira linha é a da matéria-prima e dos insumos: 14,7 de cada 100. Ela inclui o plástico e também outros materiais. O relatório não separa a peça, a caixa e o manual.
Na fábrica, são três etapas: moldar as peças, decorar e montar, e embalar. A LEGO tem seis fábricas próprias, na Dinamarca, na China, na Tchéquia, na Hungria, no México e no Vietnã, e uma sétima em obras na Virgínia, nos Estados Unidos, prevista para 2027. Segundo o relatório, a energia é uma parte relativamente baixa do custo de produção.
Outra linha é a depreciação e amortização: o desgaste das máquinas, dos moldes e dos prédios, contado um pouco a cada ano. Ela fica com 3,9 de cada 100. No balanço, um molde é depreciado em cinco anos, e uma máquina, de cinco a quinze. Somando o material e o desgaste, são 18,6 de cada 100, menos de 19. A matéria-prima não é o que mais pesa nessa conta.

A maior linha da conta é a das pessoas: salários, previdência e encargos, com 20,5 de cada 100. No fim de 2025, a LEGO tinha 33.801 funcionários. Essa linha soma todo mundo da empresa, das fábricas aos escritórios. Ou seja, a LEGO gasta mais com gente do que com toda a matéria-prima e os insumos.

Depois vem o marketing, com 12,2 de cada 100, um pouco menos do que tudo o que vai para a matéria-prima. Somando pessoas e marketing, são 32,6 de cada 100, mais que o dobro da matéria-prima.

As licenças
Outra linha é a das licenças e dos royalties: 8,1 de cada 100. Nela entra, por exemplo, o que a LEGO paga para usar marcas de outras empresas. Entre os temas que mais venderam em 2025, o relatório cita o Star Wars, que leva a marca de outra empresa. Só que o relatório não diz quanto vai para cada dono de licença. Nessa parte, o balanço não abre a conta.

Uma outra nota do relatório (a nota 5.4, na página 68) mostra um pagamento diferente. A LEGO paga à LEGO Holding, a empresa que controla o grupo, um royalty pelo uso da marca LEGO. Em 2025, foram 2,965 bilhões de coroas, quase três bilhões, cerca de 3,5 de cada 100 que chegam à LEGO.
O relatório não diz se esse valor está dentro da linha das licenças. Por isso, aqui ele fica à parte, sem somar nem subtrair.

O resto da conta
Faltam duas linhas. A LEGO tem cinco centros regionais de distribuição, e a linha da distribuição fica com 3,9 de cada 100. Uma linha de outras despesas externas fica com 10,4, e a tabela não detalha o que entra nela.
No total, os custos ficam com 73,6 de cada 100. Sobram 26,4. Esse é o lucro operacional, o que a empresa ganha com a operação, antes dos juros e do imposto.

A mesma conta, por função
O relatório mostra a mesma conta de outro jeito, pela função de cada gasto, na demonstração de resultado (página 44). Fazer o produto custa 32,2 de cada 100. Vender e distribuir, 30,8. Administração e tecnologia, 7,9. Pesquisa e desenvolvimento, 2,8. O lucro operacional é o mesmo, 26,4.
Nessa divisão, o custo de fazer o produto já inclui a matéria-prima, os insumos, os royalties e a mão de obra da fábrica. Por isso, as duas divisões não se somam.
Tirando só o custo de fazer o produto, sobram 67,8 de cada 100. Isso se chama margem bruta. Um erro comum é ler esse número como lucro. A margem bruta é o que sobra antes de vender, administrar, pesquisar e pagar o imposto. O lucro que fica no fim é bem menor.

O que sobra
Dos 26,4 de lucro operacional, ainda saem duas linhas. O imposto de renda leva 6,0 de cada 100; em 2025, a alíquota efetiva foi de 22,9%, para uma alíquota de 22% na Dinamarca. O resultado financeiro, com os juros e o câmbio, tira mais 0,4.
Sobram 20,0 de cada 100. Esse é o lucro líquido de 2025: 16,7 bilhões de coroas, perto de R$ 14,5 bilhões na mesma cotação de 31 de dezembro de 2025. Assim, o lucro do ano foi maior que tudo o que a LEGO gastou com matéria-prima e insumos.

Quem fica com ele
Desde 11 de agosto de 2025, 75% da LEGO A/S são da LEGO Holding, que pertence à KIRKBI, a empresa da família Kirk Kristiansen. Os outros 25% são da LEGO Foundation Investments, uma empresa da Fundação LEGO. Segundo o relatório, essa nova estrutura não muda quem é o dono final.

Em maio de 2025, a LEGO pagou 9 bilhões de coroas em dividendos: 6,75 bilhões para a KIRKBI e 2,25 bilhões para a Fundação, ou seja, três quartos e um quarto. Esse dinheiro saiu do lucro de 2024.
Sobre o lucro de 2025, a proposta é de 8 bilhões de coroas em dividendos, perto da metade dos 16,7 bilhões. É uma proposta: o relatório traz o valor proposto, não um pagamento já feito. O resto fica na empresa. Em 2025, ela investiu 9,2 bilhões de coroas em fábricas, centros de distribuição e escritórios.

O que a Fundação faz com a parte dela não está neste relatório, e por isso fica fora deste texto.
2004 e 2025
No relatório anual de 2008, a tabela de cinco anos começa em 2004, o pior ano dessa tabela. Em 2004, a receita foi de 6,3 bilhões de coroas, e a LEGO teve um prejuízo de 1,8 bilhão de coroas: 28,6 de cada 100 que chegaram.
Em 2025, o lucro foi de 20 de cada 100. A receita ficou mais de 13 vezes maior, sem descontar a inflação. Essas tabelas não explicam as causas dessa virada, e por isso elas ficam fora deste texto.

O que não aparece
Por fim, o que esse balanço não explica. Ele não diz o preço de nenhuma caixa, nem quanto custa cada peça. Também não diz quanto vai para cada dono de licença, nem mostra a margem do lojista ou o imposto que a caixa paga no Brasil.
O que ele mostra é o caminho do dinheiro depois que chega à LEGO. Para explicar o preço numa loja daqui, faltam as contas de quem está no meio do caminho.
Resumo
Em resumo, com os números de 2025:
- O que você paga na loja não chega todo à LEGO.
- De cada 100 que chegam à LEGO, a matéria-prima e os insumos levam menos de 15.
- Pessoas, marketing e licenças levam mais de 40.
- Depois de todos os custos e do imposto, 20 viram lucro, e a proposta é pagar perto da metade dele em dividendos aos donos.
O plástico não é o que mais pesa na conta da LEGO. Somadas, as pessoas, o marketing e as licenças pesam quase três vezes a matéria-prima, e o lucro, sozinho, pesa mais que ela.
Fontes
- The LEGO Group 2025 Annual Report lego.com
- 2025 Financial Highlights lego.com
- LEGO Group, 1º semestre de 2026 lego.com
- Annual Report 2008 lego.com
Todos os números do vídeo e deste artigo foram conferidos nestes documentos antes da publicação.
Este artigo explica como uma empresa ou um sistema funciona. Não é recomendação de investimento, de compra nem de nenhum produto financeiro.
Gostou? O vídeo mostra as contas em animação
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